Educação Sexual Inclusiva

Ah, provavelmente todes nós tivemos que ouvir alguma coisa parecida:

Você vai querer sexo quando crescer.

Bem, se fosse assim, onde devolvo todos estes anos que passaram e eu ainda não quero?
Pela educação sexual mal feita e o que pretendo trazer para falar dela, desta vez vou usar “não querer sexo” tanto como ausência de atração sexual quanto como aversão por sexo; que são coisas diferentes, mas que são igualmente invalidadas nesse caso.

Eu já cheguei a explicar isso dentro de um texto sobre outro assunto, mas no futuro vou desenvolver um só sobre isso: a comunidade LGBTQIAP+ não é pra ser só sobre sexo, tanto do ponto de vista estereotípico de alguém desinformade quanto pelas pessoas de dentro da própria comunidade. Um dos motivos pelos quais isso é maléfico é que apoia opiniões conservadoras de que criança não pode ser informada de que existimos, como se nunca tivéssemos sido crianças antes de tudo – tipo o exemplo clássico em que parece que pra alguém explicar dois homens se beijando pra su filhe terá que explicar o que é “sexo gay” enquanto pra explicar um casal hétero fazendo o mesmo não precisa detalhar (usei o exemplo de dois homens pra ser fácil de entender, mas prefiro mesmo evitar fortalecer a ideia de que LGBT+ são exclusivamente homens cis gays). E por que que crianças não podem entender o que é não ser cis-hétero? Porque isso implicaria só tratar da parte sexual, considerada “coisa de gente grande.”
É daqui que vou partir; que parece que faz as pessoas pensam mais sobre ume jovem “será que já tem vontade?” no lugar de se preocuparem com verdadeiras mudanças que trazem a fase adulta.

Bem, eu comecei com o que as pessoas pensam ou são induzidas a pensar para não tratar da diversidade sexual, mas e a educação sexual? A educação sexual é parte muito importante de se criar um indivíduo porque vai tocar em assuntos sobre relacionamentos, tratar de tirar algumas dúvidas, e – por que não? – até sobre riscos de DSTs. Mas isso é quando é feita corretamente, porque educação sexual não é pra ser simplesmente “sexo é gostoso e é assim que faz;” é importante que educação sexual também trate de como relacionamentos podem ser diversos conforme a preferência e o conforto das pessoas envolvidas mesmo que não inclua sexo porque, adivinha, vai haver alguém na audiência que vai preferir assim, e essa pode ser a grande chance se sentir bem e segura sobre seus futuros relacionamentos, ou a chance dela se convencer que precisa mudar, ou que simplesmente não pode existir; é importante que saiba diferenciar o gosto pelo sexo da atração sexual, de libido, excitação, diversos tipos de atração (até mesmo orientação sexual e romântica), porque é a chance da pessoa crescer sabendo que ela ainda é gente de verdade se seus interesses sexuais e românticos forem divergentes um do outro – eu mesmo sou assexual, mas também quoiromântico; etc.
Com a educação atual, vão haver aces e aros que vão ver sus coleguinhas compartilhando sentimentos e experiências relacionadas a assuntos da educação sexual, e tirando dúvidas a respeito, e vão sentir que estão em noutro mundo, porque a educação sexual lhes disse que “quando crescerem vão querer sexo; isso acontece com todo o mundo;” até tiveram esperanças quando ouviram que deve-se respeitar o tempo de cada pessoa, que algumas estão prontas mais cedo e outras mais tarde, mas nunca que você pode simplesmente não ter essa vontade; ela tem que chegar – no meu texto sobre “consentimento à força,” eu falei sobre o preço de dizer “não” continuamente dentro da sexonormatividade.
Quando crescerem, essas pessoas podem ter problemas com relacionamentos – principalmente não tiverem a sorte (que infelizmente é questão de sorte) de encontrar alguém que aceite plenamente seus sentimentos em relação ao sexo -, e quando forem atrás de ajuda (profissional ou não), essa ajuda só será voltada a quem é “madure” pra se relacionar; não maturidade pra saber dividir responsabilidades e se valorizar no relacionamento (até porque isso se dão ao trabalho de ensinar), mas maturidade de querer fazer sexo – e se não for o seu caso, acabou aqui; não tem mais nada pra você. Isso é de uma educação sexual que se resumiu em “sexo é gostoso e é assim que faz.”

O texto  começou falando sobre educação sexual mal feita: Ah, provavelmente todes nós tivemos que ouvir alguma coisa parecida [com] “você vai querer sexo quando crescer.
Então vou passar por alguns pontos que podem deixar a educação sexual mais confortável pra algume jovem ace. São ideias de que eu fui lembrando por relatos de outres aces e até mesmo as dificuldades que tive pra aceitar minha assexualidade.

  • O primeiro ponto é uma coisa que tenho a impressão de que fazem pensando em ajudar. Mais uma vez vou afirmar que não vou passar a mão na cabeça só por uma justificativa desinformada. “Tem gente que ‘amadurece’ mais cedo ou mais tarde, mas cada pessoa tem seu tempo.” A parte do “amadurecer” já foi criticada na primeira parte (linkada no final), e tem outras formas de se dizer a mesma coisa. Mas ainda tem a ideia de que uma hora “todo o mundo vai querer fazer sexo.” Isso é falado por quem prevê que algumes jovens vão ser cobrades ou se sentir por fora por “não acompanharem” o ritmo, e até prevenir abusos em relacionamentos. Mas isso não é uma solução nem do ponto de vista de aces e gente com repulsa por sexo, nem do ponto de vista de que isso não acaba com a cobrança de que você “deve sexo pra sociedade,” só adia. Eu já fiz um texto sobre “consentimento à força,” em que eu me baseei em um texto de um blog ace muito bom pra falar de várias formas em que o consentimento é uma moeda, uma posse na sociedade, e isso é que deve sumir. Então, começando por esse lado de só adiar o abuso e não resolvê-lo, falar que tal pessoa vai querer sexo em algum ponto é dizer que a pessoa que se interessar sexualmente por ela deve respeitar porque uma hora ela “vai ceder.” E a palavra que uso é ceder porque se trata de uma “dívida;” “depois de ‘esperar’ tanto eu posso fazer o que quiser, né?” Mesmo que a pessoa passe a gostar e querer sexo, a sua sexualidade, a sua liberdade sobre o seu corpo são válidas, não importa o quanto você ache que foi “paciente.” Meu consentimento não é trocável por uma espera de tanto tempo; não é assim que funciona. Acho que foi nesse texto mesmo sobre forçar o consentimento em que eu disse: sexo não é só pra uma pessoa (isso é abuso); é pra mais de uma pessoa; pra se divertirem, se conhecerem, seja o que for que estejam buscando através dele.
  • Ah, e a parte de aces que são simplesmente ignorades, porque sus parceires e mesmo jovens aces vão esperar de si que uma hora as coisas mudam, porque nunca querer sexo nunca foi uma possibilidade. Por que eu tenho que esperar fazer 20 anos pra descobrir que essa hora não chegou? Por que ume jovem de 16 anos que passa pelas mesmas coisas que outres aces passamsua assexualidade é válida em qualquer idade; sempre que essa identidade te representar – não tem por onde ao menos fazer com que as pessoas questionem toda a sexonromatividade que lhes foi ensinada porque ainda tem gente que espera que uma hora as coisas vão mudar? – e não tem problema se mudarem; já fiz uma séries de postagens sobre a fluidez da sexualidade.
  • Mais um ponto que vi de aces sobre a educação sexual que receberam foi de não quererem ouvir certas coisas muito explícitas. Em geral, não me incomodo, mas eu tenho repulsa por sexo, e formas (irônicas ou diretas mesmo) de tratar o sexo com a implicação de que eu goste ainda me fazem preferir ir embora – comentários e conversas que fiquem pedindo uma resposta minha do tipo: “o que você faria?” “sabe como é?” Não vou mentir que nunca ouvi de mulher de idade como ela acha que “homem tem que ser na cama” como se eu tivesse pedindo ajuda; ou ainda aquele pessoa que se acha super sexo-positiva e vai falar de hobbies sexuais achando que está salvando a sanidade de todo o mundo, afinal quem não quer conhecer e satisfazer todos os fetiches? Não. Eu não sei, e nem quero (e, claro, não preciso saber) . Quando o conteúdo da educação sexual chega a um ponto explícito o suficiente pra alguém se sentir desconfortável a ponto de querer sair, esse indivíduo pode muito bem ir embora; se se está falando de uma coisa que me dá repulsa e que eu prefira falar sobre outro assunto, essa parte da educação é pra outra pessoa, mas não pra mim. Ainda vale lembrar que, não, isso não é infantilidade, como eu disse na primeira parte do texto.
  • Muito importante também na educação sexual é tirar dúvidas diretamente a partir das perguntas des alunes. Mas isso tem que ser feito com muita responsabilidade. É muito comum que as respostas sejam simplesmente baseadas na própria experiência, como se fosse a vivência ideal do sexo. Quando for tirar dúvidas, o mais importante é saber responder dando toda a atenção à liberdade de alune sobre a própria sexualidade e à liberdade das outras pessoas também. Nada de achar que você aprendeu tudo sobre “consentimento através da linguagem corporal” pra ficar dando “dica” pra jovem, por exemplo. Quando for tirar dúvidas ou deixar o tema em aberto em geral, saiba ouvir, e deixe todo o mundo expressar tudo o que precisar. Deixe que a pessoa ponha pra fora tudo o que a aflige, porque ela tem a dúvida; porque é importante, por exemplo, saber se é imoral ter interesse em mais de uma pessoa ao mesmo tempo – é claro que não – ou porque é tão diferente excitação física de emocional – na minha postagem, já velhinha, sobre masturbação, eu referenciei uma pesquisa feita em mulheres cis sobre atração fisiológica e subjetiva. Até porque, quando você absorver tudo, isso vai te ajudar a responder-lhe defendendo sua liberdade e a liberdade das outras pessoas.

Agora nesta última parte vou colocar algumas coisas que vi de outres aces sobre a importância da educação sexual bem feita para aces também.
O primeiro texto é de um blog de que gosto muito sobre a assexualidade. Ele elabora sobre a importância de reconhecer que tem aces na audiência – surpresa! aces vivem no mesmo mundo que você – que precisam de ajuda, que ainda sequer aceitaram sua própria assexualidade ainda, etc.
O texto tem três partes. A primeira é sobre aces que ainda não descobriram sua assexualidade. Se pra você, alo, ouvir falar da assexualidade é uma coisa nova e dá trabalho de entender, imagine todes es aces que levaram tanto tempo pra se descobrir. Eu tinha descrito no começo desta série de postagens como a educação sexual que recebi e que mais vejo por aí no Brasil afirma e reafirma que “sexo é bom e é assim que faz,” implica que uma hora todo o mundo vai querer sexo, mais cedo ou mais tarde – e até critiquei essa parte com o link pro meu texto sobre “consentimento à força” -, etc. Quando não há ninguém nem nenhuma pista de que tudo bem eu ser quem eu sou, não ser tão “sexual” como mis colegas. Eu não vou adivinhar o que eu tenho e o que eu não tenho que ouvir; principalmente se me vendem essa ideia como “educação.”
A segunda parte é sobre aces que gostam de sexo, que retruca a falácia com a qual o texto havia começado: por que a educação sexual precisa cobrir a assexualidade se aces não fazem sexo? Aces podem gostar ou não gostar de sexo, porque isso não tem nada a ver com a ausência de atração sexual; e também se a ausência de atração significa ausência de prática, você está implicando que quem sente atração precisa fazer sexo? Ora, se você sente atração por alguém e não é recíproca, a pessoa lhe deve sexo, porque você não pode ficar sem? Misturar atração sexual com a prática do sexo é, sim, um conceito perigoso; assim como misturar o interesse por sexo ou romance com amor invalida muitos amores por aí do mundo, misturar interesse sexual (que vem de uma pessoa) com sexo (que é uma atividade para ser divertida, entusiástica, e para mais de um indivíduo) valida muitos abusos. Aces podem, sim, gostar ou não gostar de sexo indiferentemente de onde estejam no espectro assexual. Aces que gostam e praticam o sexo precisam ainda de todas as dicas de sexo, prevenção de DSTs, gravidez, relacionamentos e tudo o mais que se espera de uma educação sexual bem feita.
A última parte do texto é sobre aces que não gostam de sexo (como eu). O texto elabora sobre dificuldades com relacionamentos, vulnerabilidades, o “mantra” da educação sexual de que “somos todes seres sexuais” e tal. Eu já escrevi muito, mas muito mesmo sobre o assunto, principalmente pra alguém como eu, que não curte relacionamentos sexuais nem românticos antes de tudo. Alguns links meus a respeito são são “fazer sexo que você não quer não é o mesmo que não fazer sexo que você quer” e “eu sou só um sorvete pra você?“, que tratam de assuntos de relacionamentos envolvendo aces.

O segundo texto é sobre ume ace que cosidera o descobrimento da assexualidade sua verdadeira educação sexual. O texto elabora sobre a descobrimento de orientações sexuais e românticas, tipos de atração, e o envolvimento com a comunidade, com os quais quando comparadas as aulas de educação sexual são muito rasas. A simplicidade em tentar definir as pessoas em hétero, gay ou bi, além de ser pouca, exclui quem simplesmente não se encaixa nisso – você não vai conseguir encaixar alguém homoflex ou pan nesses três termos, e algume ace tampouco. Não só são muito simples, como insuficientes.
O texto segue incluindo ainda experiências de formulários e atividades explicitamente excludentes a aces, em que afirmar que eu não sinto atração sexual, não tenho vontade de fazer sexo, de me envolver sexualmente não tem espaço.

O último texto é um arquivo disponibilizado no AVEN que foi feito por um grupo ace de Nova York. É uma leitura curta, em que se enumera alguns termos-chave para a inclusão da assexualidade na educação sexual: assexual, pessoa que experiencia nenhuma atração sexual; gray-A, pessoa que experiencia pouca atração sexual, entre assexual e (alos)sexual; ace, termo-genérico para indivíduos do espectro assexual; demissexual, pessoa que só experiencia atração sexual após um envolvimento emocional (por favor, eu não preciso dizer que isso não é sinônimo de “só fazer sexo depois de namorar,” não é?); atração romântica, a vontade de ter contato romântico e não necessariamente sexual com outra pessoa; e orientação romântica, o padrão em que o indivíduo experiencia atração romântica.
Na segunda página, o documento elabora em como tornar a educação sexual mais inclusiva. Na lista está presente: uso de termos sobre a assexualidade (como os que acabei de enumerar); distingüir claramente intimidade sexual de emocional; falar sobre orientações românticas; evitar afirmar “todo o mundo tem sentimentos sexuais;” evitar afirmar “aces ficam ‘de boa’ sozinhes;” discutir expressão de gênero; discutir consentimento; evitar igualar assexualidade e celibato; e evitar afirmar que assexuais não fazem sexo.
Acho interessante como esse texto parece bem amigavelmente gentil e paciente em explicar essas coisas – mas ainda vou lembrar que nenhume ace tem obrigação de ter a maior paciência do mundo de passar por uma educação sexual frustrante e deixar passar como se tivesse sido um errinho bobo.

Alguns textos que usei (todos em inglês)
https://theacetheist.wordpress.com/2013/12/26/xd-out-asexuality-in-sex-education/
https://writingfromfactorx.wordpress.com/2011/07/18/asexuality-was-my-sex-ed/
http://www.asexuality.org/docs/Ace_Inclusive_Sex_Ed.pdf

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Author: soranotamashii

Asexual sex-averse quoiromantic nonamorous (maybe romance-averse as well) activist. Also a retro-gamer, brony, furry, otaku and polyglot (portuguese, spanish, english, japanese, romanian and old tupi).

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