Educação Sexual deve ser Acessível

A educação é um direito de todo o mundo e é nosso dever defendê-lo. A educação deve ser empoderadora, isto é, libertadora, que promove a independência do indivíduo e seu poder sobre sua própria vida. Também deve ser acessível, tanto no sentido financeiro quanto geográfico e até de credo, ou seja, laica. Dentro disso, não esqueçamos da educação sexual, que é ainda um tabu no nosso país. Mesmo sendo parte do currículo, é negligenciada e sofre até mais ataques de ideologias fundamentalistas do que o ensino da evolução. Minha sexualidade não oprime sua fé. Então não use a fé de desculpa pra oprimir minha sexualidade.
Como eu disse, a educação sexual deve ser acessível em todos os sentidos: deve se adaptar à linguagem das crianças, ao seu mundo, e deve fazer todo o mundo sentir-se aceite.

Os ataques fundamentalistas religiosos e conservadores vêm disfarçados de moralidade e de proteger as crianças. Crianças crescem e mudam, e ensinar sobre isso é valorizar seu bem-estar. Quando a pessoa está consciente do que vai acontecer com ela nos próximos anos, ela se prepara. Educação sexual de qualidade não vai atrapalhar no crescimento das crianças; mas prendê-las a um mundo cis-heteronormativo vai. Educação sexual também é proteger as crianças contra o abuso, ensinando a reconhecer comportamentos inadequados perto de crianças, seja na vida real ou online.
Também já escrevi que a comunidade LGBTQ+ não é só sobre sexo; é sobre sentimentos. A censura de que nós somos só pra maiores de idade nasce de um preconceito de que tudo o que somos é um fetiche, uma perversão. Existe romance, autodescobrimento, acolhimento, etc. Meu pai mesmo já disse que um casal gay namora igual qualquer casal hétero: vai ao cinema, janta junto, etc. Não é só sexo, sexo, sexo. A comunidade LGBTQ+ também não é só sobre sexo quando falamos de gênero. Ser trans não é uma perversão; é o sentimento da pessoa, e normalmente a pessoa já sabe disso desde criança, mesmo que não lhe ensinem como expressar o que está sentindo. Proteja crianças trans!

Pra que a educação sexual seja acessível, é precisa primeiramente reconhecer que todo o mundo pode aprender alguma coisa nova. Pode, sim, ser importante usar de experiências pessoais, mas sua opinião ou sua crença não são a experiência de todo o mundo, e você também pode aprender uma coisa nova.
Minha educação sexual falhou nisso: teve bastante opinião pessoal quanto a “todo o mundo fazer sexo” e isso reforçou o foco na sexualidade de pessoas cis-hétero. Nunca ouvi falar de disforia, de pessoas intersexo e mesmo de assexuais em nenhuma das escolas em que tive aula de educação sexual (duas escolas particulares e uma pública).
Não é que seja errado contar sua experiência, mas no papel de ensinar esforce-se a colher experiência de pessoas diversas – tem bastante relato de aces, de trans, etc. disponíveis – senão não é justo só dar sua opinião.

Quando pesquisei sobre gravidez na adolescência, vi que uma medida tomada na Europa para prevenir a gravidez indesejada foi a Educação Sexual e Relacional, isto é, fundir a parte da educação sexual que fala da anatomia com a parte social, inclusive em relacionamentos. A ideia é prevenir relacionamentos desequilibrados, imaturos e abusivos.
Relacionamentos são muito impactados por questões sociais: quem decide o que é um beijo romântico, ou como falar com nóssu parceire, ou como nos apresentar? Isso é impactados por filmes, livros e tradições que evoluem lentamente ao longo do tempo. Dentro disso, infelizmente, tradições de controle, ciúmes em excesso e de submissão estão incluídas.
É preciso ensinar que você tem o direito de amar e de buscar alguém que te ame sem se machucar nem machucar ninguém. Não faça nada que você não queira e não se sacrifique desnecessariamente. Não permita que de digam que você não sabe o que é romantismo ou que você não retribui o amor porque não se encaixa no padrão patriarcal.

Eu estudo duas línguas nativas da América do Sul: o guarani paraguaio e o tupi antigo (tupi-guarani é uma subfamília do macro-tupi; tupi-guarani não é uma língua, assim como iberorromance não é uma língua). Estudando registros antigos dessas línguas, achei bastante curioso encontrar termos para aborto e remédio abortivo em dicionários quinhentistas. Segundo os registros, realizavam-se abortos quando a pessoa não queria ter a criança.
Acho isso um bom jeito de mostrar que a soberania sobre o próprio corpo é essencial. O aborto é um exemplo de soberania sobre o próprio corpo, pois é você que decide se quer submeter seu corpo a uma gestação – não é a lei, su parceire, sua família ou sua religião.
A educação sexual deve facilitar a criança a passar pelas transformações do seu corpo. Para isso, não podemos deixar que superstições e tradições patriarcais simplesmente proíbam que se ensine a cuidar do próprio corpo. Seu corpo é seu; ele é lindo! Você também toma a decisão de como seu corpo reflete quem você é: cortes de cabelo, tatuagem, e também características sexuais secundárias. O tratamento hormonal na puberdade diminui drasticamente as chances de suicídio e garante o bem-estar do indivíduo (lembrando que nem toda pessoa trans tem disforia ou deseja mudar seu corpo).
Quanto a características sexuais primárias e secundárias, também é preciso lutar para proteger crianças intersexo contra a mutilação e os tratamentos forçados para que seus corpos se encaixem em binários que nem existem no mundo real.
Igualmente, não podemos permitir que as mesmas tradições te digam que você é deve fazer sexo com outra pessoa. Seu corpo é seu, e sua decisão é soberana. Você não é um sorvete desperdiçado.
As questões do aborto, de crianças trans, de crianças intersexo e de assexuais jovens são uma questão de soberania do indivíduo sobre o próprio corpo!

No Brasil, nos EUA e em vários países europeus, fundamentalistas se organizam contra a educação sexual alegando que a “ideologia de gênero” está oprimindo as crianças e a sua fé. Dizem que a “ideologia de gênero” confunde as crianças e vai destruir a família. Isso é um discurso totalmente hipócrita! Quem destrói famílias são as pessoas que escondem o abuso, que expulsam parentes de casa por intolerância religiosa. Quem confunde e oprime as crianças é o patriarcado que submete a mulher a serva do marido, que força crianças LGBTQ+ a cumprir papeis de uma sociedade cis-heteronormativa que não as representa.
Não existe “ideologia de gênero”, em primeiro lugar, porque não é uma ideologia, um dogma, uma doutrina – o patriarcado é; a religião é; o fascismo é. O que chamam de “ideologia de gênero” é o tratamento honesto de reconhecer a diversidade e não mais fingir que todo o mundo vai ser igual se a gente se calar. Ter medo da “ideologia de gênero” é tão ridículo quanto ter medo de cair da borda da Terra plana.

Author: soranotamashii

Asexual quoiromantic non-monogamist aspie nudist activist. Also a retro-gamer, brony, furry, otaku and polyglot (portuguese, spanish, english, japanese, romanian and old tupi).

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